O perigo dos coletores “baratinhos” | por: @papodecopinho

O perigo dos coletores “baratinhos”

 

 Com a popularização do uso dos coletores menstruais nesta última década, começamos a ver um grande aumento no número de marcas e modelos novos no mercado, trazendo bastante variedade para quem tem interesse em começar a usar o produto. No entanto, isso também fez com que um mercado paralelo e potencialmente perigoso de coletores ganhasse força no Brasil e no mundo. Eles são os coletores super baratinhos, comumente chamados de “chineses”, pois são geralmente encontrados em grandes sites chineses, como Aliexpress e Wish, muitas vezes sendo vendidos por atacado. Com preços atrativos, pseudo marcas e eventuais anúncios enganosos, esse tipo de produto tem ganhado cada vez mais a confiança do consumidor desavisado, porém existe uma grande cortina de fumaça cobrindo os potenciais riscos que seu uso prolongado pode causar.

Coletores menstruais são copinhos feitos, na sua maioria de silicone ou TPE, que são inseridos dentro do canal vaginal para coletar o sangue menstrual sem absorver os seus fluidos naturais. Um coletor menstrual pode permanecer dentro da vagina por até 12 horas seguidas e, após esse tempo, deve ser removido e lavado antes de ser reinserido. Além disso, ele também precisa ser fervido no início e final do período menstrual para completar o processo de higienização.

Por precisar ficar várias horas seguidas dentro do canal vaginal, o coletor (ou disco menstrual) precisa ser feito de material de grau médico (o único tipo seguro para o uso dentro do corpo atualmente), além de passar por uma série de testes laboratoriais e certificações por autoridades sanitárias, a fim de conferir a máxima segurança para a saúde de suas usuárias. Todo o processo de fabricação deve seguir regras rígidas para garantir a qualidade do produto final.

Vamos dar uma olhada no cenário regulatório atual para lançar um coletor ou um disco menstrual no mercado de forma responsável:


O coletor Menstrual foi considerado produto de interesse a saúde através da RDC 172/2017 (que entrou em vigor em 2019), e passou a fazer parte do rol de produtos sob autarquia da ANVISA. Nesta, o coletor menstrual é classificado dentro da classificação de cosméticos, produtos de higiene e perfumaria, de grau 1 (classificação mais branda), necessitando notificação do produto a ANVISA.


Regras para a notificação:

  • A rotulagem deve conter as informações principais sobre uso do produto e alerta sobre a síndrome do choque tóxico.
  • Testes laboratoriais: Teste de irritabilidade da mucosa vaginal, teste de irritabilidade a pele e testes de citotoxicidade de acordo com a ISO 10993-5. Esses testes comprovam a qualidade da matéria-prima.
  • A empresa deve ter autorização de funcionamento especial ativo para submeter a notificação (AFE).


Regras para a produção:

  • A empresa deve ter autorização de funcionamento especial ativo para submeter a notificação (AFE).
  • Seguir as boas práticas de fabricação recomendados pela ANVISA;
  • Garantir a rastreabilidade de lote e validade de produtos;
  • A logística somente pode ser feita por empresas autorizadas a transportar cosméticos, produtos de higiene e perfumaria;


Armazenamento;

  • Regras sanitárias de estabelecimento de armazenagem;
  • Controle de armazenagem por lote e validade;
  • A logística somente pode ser feita por empresas autorizadas a transportar cosméticos, produtos de higiene e perfumaria;
  • Comprovante de controle de pragas;
  • Comprovante de limpeza de caixa d'agua;
  • Programa de acompanhamento de Saúde e Segurança do Trabalho;

Rastreabilidade:

  • Empresa tem que analisar os casos de reações não anormais do produto e emitir um laudo sobre as conclusões; 
  • Em caso de detecção de problema em um ou mais lotes de fabricação a empresa tem que garantir a retirada do mercado de todos os produtos não conformes; (recall)

  

Ufa! Não é pouca coisa, certo? Isso tudo é para assegurar que o produto que chega na casa do consumidor final seja próprio para uso em contato com a flora e a mucosa vaginais por períodos longos de tempo. A meta é poder usar nossos coletores e discos mantendo nossa flora vaginal equilibrada e nossa mucosa saudável e livre de toxinas. E isso tem um custo. Um custo que é incompatível com o preço final que vemos em alguns anúncios de coletores pela internet.

Quando compramos um coletor ou um disco menstrual, estamos pagando pelo material de qualidade, pelos testes laboratoriais, pelas pesquisas, pelo design original e pelo trabalho de vários profissionais ao longo da cadeia que se importam com a nossa saúde.

Por isso, apesar de nos últimos anos o investimento inicial dos coletores e discos seguros ter ficado bem mais acessível do que era no passado, ele ainda tem um custo que reflete todo o trabalho colocado na sua produção.

E é aí que mora o perigo de comprar um produto cuja procedência não é transparente.

Ao escolher seu produto, é muito importante saber de onde ele vem: onde foi fabricado, em que condições foi fabricado, quem é o responsável pelos processos de fabricação, testes e fiscalização do produto e seus componentes (saquinhos, corantes, embalagens, etc.) e que tipo de certificações comprovadas ele tem. Transparência é tudo aqui. Ao adquirir um coletor ou disco menstrual você está confiando a sua saúde ao time que o trouxe ao mercado.

Mas como eu faço para saber se o meu coletor é seguro?

Bem, coletores de procedência desconhecida ou não transparente geralmente apresentam algumas características em comum:

  • Preço extremamente baixo, incompatível com o mercado atual;
  • Design não-original: nesse caso, nós vemos o mesmo coletor sendo vendido com vários nomes (“marcas”) diferentes em diferentes anúncios;
  • Aparecem repetidas vezes em anúncios de sites como Aliexpress, Wish, etc., normalmente sendo oferecidos por vários vendedores diferentes;
  • Normalmente são anunciados como importados, sem que maiores detalhes sobre sua origem sejam dados. Isso pode significar que um revendedor comprou por atacado em um dos sites mencionados acima e está revendendo em outro local;
  • Alguns possuem nomes que são caricaturas de nomes de coletores seguros de marcas famosas;
  • Infelizmente, alguns desses anúncios alegam falsamente que os produtos são certificados por autoridades sanitárias de grande credibilidade, como o FDA (Food and Drug Administration, o órgão regulador sanitário dos EUA).

 

E quais os riscos que corro usando um destes coletores sem procedência conhecida?

Atualmente, ainda não temos estudos científicos que detalham todos os potenciais riscos, e isso dificulta que se consiga tirar esses produtos do mercado. No curto prazo, sintomas como alergias ou irritações na mucosa podem aparecer em pessoas mais suscetíveis. Mas o perigo maior pode estar no uso de longo prazo. A utilização de corantes não seguros ou a presença de toxinas na superfície do material do coletor podem oferecer riscos à saúde ao longo dos meses e anos de uso. Muito ainda não se sabe sobre esses possíveis danos. É um tiro no escuro.

O que sabemos é que não se tem informações precisas sobre as condições de fabricação, sobre o material utilizado, sobre os testes e nem sobre a logística desses produtos.

 

Como, desde 2019, os produtos comercializados no Brasil precisam de certificação da ANVISA, hoje isso é uma segurança a mais para nós. Esta regularização tornou mais fácil reconhecer os bons produtos e os fabricantes confiáveis: pessoas que realmente acreditam no potencial dos coletores de melhorar a qualidade de vida, nos benefícios de nos conectarmos mais com nosso corpo, na liberdade que eles proporcionam. E tudo isso com responsabilidade com a saúde dos consumidores e também com o meio ambiente.

Segurança, liberdade, sustentabilidade. Isto é o que o coletor menstrual representa.

Cuide do seu corpo com carinho, não aceitando nada menos que produtos de qualidade excelente para ele.

 

 

 Texto elaborado:  @papodecopinho 


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